segunda-feira, 28 de março de 2011

Adoração – J. I. Packer

Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do SENHOR, que nos criou. Ele é o nosso Deus, e nós, povo do seu pasto e ovelhas de sua mão.
SALMO 95.6,7

Adoração na Bíblia é a resposta devida pelas criaturas irracionais à auto-revelação de seu Criador. É uma honraria e glorificação a Deus por meio de um grato oferecimento retribuidor a Ele por todas as boas dádivas, e todo o conheci¬mento de sua grandeza e graça a nós concedidas. Isto inclui o louvor a Ele pelo que Ele é, agradecendo-lhe os seus feitos, desejando-lhe glória adicional por seus atos de misericórdia, julgamento e poder, e crendo nele pelo futuro bem-estar nosso e de outrem. Posturas de mística solenidade e celebração animada, todas fazem parte dela: Davi dançou com ardente entusiasmo "diante do SENHOR", quando trouxe de volta a arca a Jerusalém, e se pôs humildemente perplexo "perante o SENHOR", quando lhe foi prometida uma dinas¬tia, e sua adoração evidentemente agradou a Deus em ambas ocasiões (2 Sm 6.14-16; 7.18). Aprender com Deus é também adoração: atenção à sua palavra de instrução honra-o; a desatenção é um insulto a Ele. Uma adoração aceitável requer "mãos limpas e um coração puro" (SI 24.4), como também a disposição de expressar a devoção em atos de serviço e em palavras de adoração.

A base da adoração é o relacionamento pactual, por meio do qual Deus se associou àqueles a quem salvou e reivindicou para si. Isto foi verdadeiro na adoração a Ele prestada no Velho Testamento, como agora na adoração cristã. O espírito da adoração pactuai, como o Velho Testamento o modelou, é uma mescla de temor respeitoso e alegria pelo privilégio de aproximar-se do poderoso Criador com total auto-humilhação e confissão honesta de pecado, insensatez e necessidade. Sendo Deus santo e nós, humanos, imperfeitos, isto deve ser sempre assim neste mundo. E como a adoração deve ser o ponto central na vida celestial (Ap 4.8-11; 5.9-14; 7.9-17; 11.15-18; 15-2-4; 19.1-10), assim deve ser na vida da igreja sobre a terra, e deve ser desde já a principal atividade, tanto individual como corporativa, na vida de cada crente (Cl 3.17).

Na legislação mosaica, Deus deu a seu povo da aliança um modelo completo para adoração. Todos os elementos da verdadeira adoração foram incluídos nele, embora alguns fossem típicos, apontando para Cristo e deixando de valer após sua vinda. No livro de Salmos, hinos e preces para uso na adoração dos israelitas foram providenciadas. Os cristãos corretamente os utilizam em sua adoração hoje, fazendo ajustes mentais quando a referência é dirigida a características peculiares da dispensação da aliança de Deus no Velho Testamento — rei terreno de Israel, reino, inimigos, batalhas e experiências de prosperidade, empobrecimento e disciplina divina, além do que era típico do modelo judaico de adoração.

Os principais aspectos no modelo litúrgico que Deus deu a Israel foram os seguintes:

(a)     O sábado, cada sétimo dia seguinte aos seis dias de trabalho: um dia santo de descanso, a ser observado como um memorial da Criação (Gn 2.3; Êx 20.8-11) e redenção (Dt 5.12-15). Deus insistiu na guarda do sábado (Êx 16.21-30; 20.8,9; 31.12-17; 34.21; 35.1-3; Lv 19.3,30; 23.3; cf. Is 58.13,14) e fez da quebra do sábado um pecado mortal (Éx 31.14; Nm 15.32-36).

(b)     Três festas anuais nacionais (Êx 23.14-17; 34.23; Dt 16.6), nas quais o povo se reunia no santuário de Deus para oferecer sacrifícios, celebrando sua generosidade, para buscar e agradecer a reconciliação e comunhão com Ele, e para comer e beber juntos como expressão de alegria. A festa da Páscoa e do Pão Asmo, realizada no décimo quarto dia do pri¬meiro mês, comemorava o êxodo (Êx 12; Lv 23.5-8; Nm 28.16-25; Dt 16-1-8); a Festa das Semanas, também chamada Festa da Colheita e Dia dos Primeiros Frutos, marcava o fim da colheita dos grãos, e era realizada cinquenta dias após o sábado que iniciava a Páscoa (Êx 23.16; 34.22; Lv 23.15-22; Nm 28.26-31; Dt 16.9-12); e a Festa dos Tabernáculos ou Tendas, também chamada Festa do Ajuntamento, realizada do décimo quinto ao vigésimo segundo dia do sétimo mês, celebrada no fim do ano agrícola e também como lembrança de como Deus guiou Israel pelo deserto (Lv 23.39-43; Nm 29.12-38; Dt 16.13-15).

(c)     O Dia da Expiação, comemorado no décimo dia do sétimo mês, quando o sumo sacerdote levava o sangue ao pro¬piciatório no centro do santuário para expiar os pecados de Israel durante o ano anterior, e o bode emissário saía para o deserto como sinal de que aqueles pecados tinham então ido embora (Lv 16).

(d)     O sistema sacrificial regular, envolvendo diariamente e mensalmente as ofertas queimadas (Nm 28.1-15), e mais uma variedade de sacrifícios pessoais, características comuns aos quais eram que qualquer coisa ofertada devia ser sem defeitos e que, quando um animal era oferecido, seu sangue devia ser esparzido sobre o altar das ofertas queimadas para que fosse feita a expiação (Lv 17.11).

Rituais de purificação pessoal (Lv 12-15; Nm 19) e devoção (por exemplo, a consagração dos primogênitos, Èx 13.1-16) também faziam parte do modelo dado por Deus.

Sob a nova aliança, em que os tipos do Velho Testamento cederam lugar a seus antítipos, o sacerdócio, sacrifício e intercessão de Cristo substituíram todo o sistema mosaico de expia¬ção do pecado (Hb 7-10); o batismo (Mt 28.19) e a Ceia do Senhor (Mt 26.26-29; 1 Co 11.23-26) substituíram a circuncisão (Gl 2.3-5; 6.12-16) e a Páscoa (1 Co 5.7,8); o calendário festivo judaico não mais obriga (Gl 4.10; Cl 2.16); noções do cerimonial de purificação, imposto por Deus para a conscientização de que algumas coisas afastavam o homem de Deus, cessaram de ser aplicadas (Mc 7.19; 1 Tm 4.3,4); o sábado foi renovado com a casuística de fazer o bem do que nada fazer (Lc 13.10-16; 14.1-6), e recontado na base de um dia mais seis e não mais seis mais um. Parece claro que os apóstolos ensina¬ram os cristãos a adorar no primeiro dia da semana, o dia da ressurreição de Jesus, "o dia do Senhor" (At 20.7; Ap 1.10), tratando-o como o sábado cristão. Estas mudanças foram importantes, porém o modelo do louvor, agradecimento, gozo, crença, pureza e serviço, que constitui a verdadeira adoração, continua imutável até estes dias.

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