segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A Vontade de Deus ou a Vontade do Homem? - Mark R. Rushdoony | O PRINCIPAL DOS PECADORES

A Vontade de Deus ou a Vontade do Homem? - Mark R. Rushdoony | O PRINCIPAL DOS PECADORES: "ny"



Eu recebi a maior parte da minha educação em escolas arminianas, do livre-arbítrio. Sou grato pelo impacto que elas tiveram sobre mim, e pelo espírito cristão genuíno e amoroso daqueles aos pés de quem assentei.

Embora eu agora (como então) discorde fortemente da teologia deles, não questiono a sua sinceridade e devoção. Poucos homens são inteiramente consistentes em seu pensamento. Ainda menos são capazes de ver a implicação desse pensamento. Um dia, ao pé do trono, seremos todos consistentes e conscientes. Até então, devemos desafiar uns aos outros, especialmente aqueles que pensamos estarem persuadidos por terrível erro.

Uma área na qual a igreja moderna precisa ser desafiada é na área de sua soteriologia (doutrina da salvação). O liberalismo e o modernismo podem ser facilmente reconhecidos, pois negam as origens sobrenaturais da Fé. É uma filosofia naturalista que rejeita a transcendência de Deus e de Jesus Cristo, e coloca a confiança na bondade humana e em seus movimentos progressivos.

É uma fé humanista que vê o indivíduo e a sociedade como o foco da religião organizada. A visão liberal de Deus e do homem depende da visão liberal de autoridade na religião (Cornelius Van Til, The Case for Calvinism, 1968, xii). Esse ponto de visão liberal de autoridade na religião é centrado num Jesus Cristo muito humano, que é despido do miraculoso, e até mesmo de Suas palavras nos evangelhos, ao capricho de eruditos incrédulos. O Cristo histórico é remodelado pela fé naturalista do modernismo. Ele se torna o símbolo da ideologia deles, não o Salvador de suas almas.

A igreja do século vinte não teve poder para deter o crescimento do modernismo por causa da sua prévia adoção do Arminianismo, que eleva a vontade e a razão do homem para levar a justiça de Deus ao tribunal da razão; eles desafiam ousadamente os oceanos profundos dos mistérios divinos (Christopher Ness, An Antidote Against Arminianism [1700], Still Waters Revival Books, 1988, 1). Se a vontade e a razão do homem podem decidir os méritosda Palavra de Deus (que é toda uma história redentora) e livremente escolher entre Cristo e a rebelião, baseado nas operações dessa vontade e raciocínio, então o que pode impedir a vontade e a razão do homem de decidir os méritos e livremente escolher a validade da Escritura ou sua atual aplicabilidade? Os arminianos não vão necessariamente tão longe, embora suas igrejas tomem a bola do livre-arbítrio e corram com ela precipitadamente em direção ao modernismo. Por conseguinte, os fundamentalistas acham-no necessário para enfatizar apropriadamente as doutrinas cardinais da Fé.

Assim, eles evitam o naturalismo e seu humanismo implícito em favor da deidade de Cristo, a ênfase sobre a obra redentora de Cristo, e a infalibilidade da Escritura. Mas a posição dos fundamentalistas foi um dedo na represa que eles ajudaram a fissurar pela sua incorreta aderência ao livre-arbítrio como uma doutrina da Escritura. Os modernistas estendem o livre-arbítrio e a razão, enquanto os fundamentalistas restringem-no à redenção humana. Estranho o suficiente, ao tomar sua posição contra o liberalismo, os fundamentalistas defendem a soberania de Deus na revelação e preservação de Sua Palavra, mas não na salvação do homem.

História do Conflito

O Arminianismo e o Calvinismo começaram bem antes dos seus homônimos nos séculos dezesseis e começo do dezessete. As questões são tão velhas quanto o confronto de Pelágio e Agostinho no quinto século. Pelágio, imitando o paganismo, alegava que o homem não tinha nenhuma natureza pecadora e, por conseguinte, tinha uma vontade que era perfeitamente livre para obedecer a lei de Deus e crer. Agostinho respondeu que o pecadooriginal tinha corrompido de tal forma a natureza do homem, que ele era incapaz de responder à lei ou evangelho de Deus. A graça é necessária para que aqueles predestinados pela eleição de Deus exerçam a fé, a qual, dizia Agostinho, vem da graça de Deus, não da vontade do homem. (Esse é um ponto crucial. A crítica mais transparentemente equivocada do Calvinismo é a acusação que ele nega o papel da vontade do homem na fé. Ele nega a vontade do homem tanto quanto o Arminianismo nega a vontade de Deus. A questão que cada sistema responde de forma diferente é: Qual vontade é determinante na salvação, a de Deus ou a do homem?) O Pelagianismo foi totalmente rejeitado como heresia pagã mediante a influência de Agostinho.

Um novo ensinamento logo tentou tomar o meio-termo entre Pelágio e Agostinho. João Cassiano promoveu um sistema que chegou a ser chamado de Semi-Pelagianismo. Ele concordava que o pecado original corrompeu o homem, mas alegava que uma graça universal estava disponível a todos que tornavam seu exercício sobre o livre-arbítrio possível. Mesmo nisso, eles deram primazia à vontade, e não à graça. Eles afirmavam que sou eu quem deve estar disposto a crer, e a parte da graça de Deus é ajudar nisso (Steele and Thomas, The Five Points of Calvinism, 1976, Presbyterian and Reformed Publishing, 20).

A Reforma rejeitou tanto o Pelagianismo como o Semi-Pelagianismo. A soberania de Deus, a depravação e incapacidade total do homem e a eleição incondicional foram sustentadas não somente por Calvino, mas também por Lutero, Zwínglio, Bullinger e Bucer, enquanto Melancthon adotou mais tarde o Semi-Pelagianismo. A soteriologia da Reforma não era apenas justificação pela fé sem obras; ela compartilhava a visão bíblica de Agostinho com respeito à incapacidade do homem e a graça de Deus. Dessa forma, o Calvinismo é freqüentemente chamado de teologia Reformada.

O Semi-Pelagianismo foi revivido por Tiago Armínio. Em 1610, um ano após sua morte, seus seguidores publicaram um remonstrance (protesto) ao Estado da Holanda. Ele continha cinco pontos e exigia que a Confissão de Fé Belga e o Catecismo de Heidelberg fossem mudados para se conformarem a esse pensamento arminiano. O Sínodo de Dort de 1618 rejeitou a teologia e a exigência arminiana. E decidiu responder a cada um dos cinco distintivos do Arminianismo com cinco pontos correspondentes, que são conhecidos por nós como os cinco pontos do Calvinismo. Eles são

1) depravação total,
2) eleição incondicional,
3) expiação particular ou limitada,
4) graça irresistível, e
5) perseverança ou segurança eterna dos santos.

O Grande Contraste

As diferenças entre Calvinismo e Arminianismo são fundamentais, pois eles diferem sobre a natureza de Deus e do homem. O Calvinismo prega um Deus que Ele mesmo salva pecadores, enquanto estes estão mortos em seus pecados; o Arminianismo prega um Deus que torna a salvação possível.
O Calvinismo ensina que a eleição de Deus, a redenção e o chamado são todos para as mesmas pessoas; o Arminianismo deve distinguir a eleição de Deus como se referindo àqueles que respondem, Sua redenção como se referindo a toda a humanidade, e o Seu chamado como se referindo a todos os que ouvem o evangelho. O Calvinismo ensina que a eleição de Deus, a redenção e o chamado salvam homens que recebem o dom da fé para expressarem a regeneração determinante do Espírito Santo. O Arminianismo ensina que a obra de Deus prepara o caminho para a vontade determinante do indivíduo.

O Calvinismo vê a fé como um dom; o Arminianismo vê a mesma como um ato da vontade livre e consciente do homem. O Calvinismo sustenta que a graça de Deus somente salva o homem; o Arminianismo sustenta que a graça de Deus coloca o mecanismo (a expiação de Cristo) num lugar onde possa salvar. Para o arminiano, Deus na eternidade aguarda o resultado da vontade soberana do pecador. Para o calvinista, Deus decreta, redime, proclama, chama, justifica, santifica, preserva e defende os Seus; o homem é passivo, exceto quando Deus o desperta para responder por Seu Espírito.

A fé arminiana é centrada no homem; por conseguinte, a religião arminiana é centrada no homem. Então, o evangelho é a soma do trabalho do homem. Não é coincidência que o dispensacionalismo e seu desprezo efetivo de grande parte da Escritura tenha ganhado rápida aceitação nas igrejas arminianas. Se a decisão do homem é suprema, deve haver uma obsessão interminável pela pregação voltada para a vontade do pecador, e não pela pregação da Palavra. A ação cristã foi reduzida a pregar o evangelho do livrearbítrio.

Santidade e justiça foram reduzidas ao subjetivismo do pietismo, pelo qual, uma vez mais, a vontade e a razão do homem (embora supostamente guiada pelo Espírito Santo) escolhe seu próprio caminho de dever para com Deus. A vontade e a razão, primeiramente entronizados no caminho arminiano para a justificação, ainda exclui a santificação do arminiano. A piedade subjetiva tende a governar nas igrejas arminianas, a menos que um líder carismático ou ditador supra a autoridade artificial. Porque a vontade do homem é elevada pelos arminianos, a Escritura (o que resta dela após as destruições do dispensacionalismo) é depreciada. Assim diz o Senhor é arrogantemente respondido com “Mas eu penso…”. Os fundamentos da Fé estão em constante recuo diante dos ataques da demanda do homem para aumentar a autonomia de sua vontade e razão.

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